Sobre a saúde trans e a formação médica

A nossa mortabilidade é constantemente colocada em evidência numa cultura tanatocrata centrada na figura do médico. Arte por Haenuli.
Giulia Rita Barbosa Scorsin

Giulia Rita Barbosa Scorsin

Giulia Rita Barbosa Scorsin Transgender, bipolar II, medical student and a bit nerdy. I write about gender, health, culture and my experiences in the queer world.

Foi em uma outra pandemia há apenas quatro décadas que as pessoas trans no Brasil passaram a ser gradualmente inseridas no sistema e nas políticas de saúde. Uma época marcada pelo preconceito contra pessoas HIV+ e pela subsequente marginalização de identidades negras, não-heterossexuais e transgêneras, os anos 80 representam a grande porém ao mesmo tempo restrita conquista de acesso à saúde para essa população.

Desde então, muito pouco caminhamos na formação de profissionais capacitados para incluir e atender adequadamente essa população. Segundo Rocon et al (2020), os principais problemas do acesso à saúde por pessoas trans no Brasil se encontram no despreparo dos profissionais, na falta de cuidados de atenção primária (postinho de saúde), discriminação e patologização da identidade trans. Nesse texto falarei de minha perspectiva abarrotada de privilégios — com os quais eu ainda estou aprendendo a lidar — como uma acadêmica trans/travesti do 4º ano de Medicina de uma universidade pública.

O currículo médico, de forma geral, tem suas raízes em uma elite formada por homens cisgêneros brancos e, apesar das atualizações nas Diretrizes Curriculares Nacionais, ainda tende a reforçar um ideal eugenista. Tal ideal exclui pessoas trans do espaço de direitos, situando-as em um estado de exceção à lei e aos direitos enquanto pessoa humana e cidadã, sob a permanência de práticas tanatocráticas sancionadas e promovidas pelas ciências médicas.

Recai sobre nós, trans, o homo sacer de Giorgio Agamben — nossos corpos divergentes nos fazem impuras e, portanto, insacrificáveis, ao mesmo tempo em que se encontram nus diante do maquinário jurídico-político que nos ameaça constantemente por nossa pura matabilidade perante o coletivo. Vivemos como seres banidos do pacto social, como se nossa existência fosse proibida e, é claro, subversiva.

Essa exclusão se explicitou, para mim, no afastamento completo das discussões pertinentes às vivências de pessoas trans — algo que poderia ter contribuído para a minha própria transição de gênero, no sétimo semestre. Além disso, uma vez reinserida na sociedade enquanto uma pessoa trans, percebi também a desassistência progressiva à qual a minha comunidade é submetida na medida em que passamos por sucessivas tentativas frustradas de obter alguma resolução de nossas demandas de saúde, seja ela física, social e/ou mental

A graduação médica ainda segue a retrógrada teoria da degeneração de Morel (1857), perpetuando o domínio biopolítico de sujeitos considerados desviantes, anômalos, monstruosos. Sem o preparo devido, permanecemos quase dois séculos depois reproduzindo as práticas de normatização dos corpos e mentes, seguindo valores de uma ciência colonizadora, eurocentrada, cisnormativa e branca, que patologiza comportamentos e identidades e afasta.

Afasta nossos corpos do ensino médico (como sujeitos e objetos), dos espaços de saúde, do imaginário social, do mercado de trabalho. Afasta, mas também atrai. Nos atrai para a automedicação, para procedimentos clandestinos e perigosos, para a vida de bicos ou das ruas e, enfim, atrai nossos corpos sem vida para o IML.

Respaldados por um “senso comum científico”, a universidade age como se não tivéssemos mentes e corpos que também precisam de cuidado (estima-se que 42% da população trans já tentou suicídio, índice que tende a ser mais elevado nos homens trans), como se seus alunos e alunas jamais fossem atender demandas de pessoas trans, como se meu dever como futura médica fosse no máximo encaminhar aquela pessoa “estranha” para um serviço especializado (uma higienização que expulsa nossos corpos de espaços comuns como os postos e clínicas de saúde frequentados pelo resto da população).

Nos cegamos às especificidades e às vulnerabilidades às quais a população trans está sujeita, silenciamos suas potencialidades e, principalmente, ignoramos a nossa própria ignorância enquanto discentes e formadores ainda que ela seja causa direta de sofrimento, adoecimento e morte de uma parcela importante da população brasileira.

Até que estratégias de sensibilização e educação sobre saúde trans para a graduação e para a educação continuada de profissionais sejam colocadas em prática, formadores e formandos seguem culpados por diversos “suicídios” (que afinal não passam de um assassinato social pautado no cissexismo e no racismo), homicídios, AVE por uso inadequado de hormônios e mortes subsequentes à injeção de silicone industrial, dentre tantas outras consequências da falta de acesso aos serviços de saúde.

Para encerrar, deixo dois questionamentos: se estamos formando profissionais que seguirão cegamente o “senso comum pseudo-científico”, sem crítica, sem sensibilidade e, principalmente, sem atualização de antigas verdades que se provaram falsas, qual a garantia de qualidade de cuidado estaremos oferecendo à população? E, citando Marx, devemos também pensar: quem educará os educadores?

REFERÊNCIAS

  1. CAPONI, Sandra. BIOPOLÍTICA E MEDICALIZAÇÃO DOS ANORMAIS. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 19, n. 2. 2009.
  2. MARTINS, Lucas Moraes. O SIGNIFICADO POLÍTICO DO HOMO SACER NA FILOSOFIA DE GIORGIO AGAMBEN. InterSciencePlace Rev. Científica Internacional, v. 11, n. 1. 2016.
  3. ROCON, Pablo Cardozo et al . ACESSO À SAÚDE PELA POPULAÇÃO TRANS NO BRASIL: NAS ENTRELINHAS DA REVISÃO INTEGRATIVA. Trab. educ. saúde, Rio de Janeiro , v. 18, n. 1. 2020.

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