Pedras-reflexão

“Com isto se torna manifesto que durante o tempo em que os homens vivem sem um poder capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição que se chama de guerra; uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens”
(O Leviatã, Capítulo XIII)

Tenho um “trampo” que estou desenvolvendo de forma lenta e gradual, com alguns moradores de rua. Com os párias.
A relação , tirando aquilo que nos assusta – as pedras, já é uma relação de confiança. Eles me dão suas histórias e tentarei lhes dar a publicação destas e algumas fotos. Afinal há beleza também naquilo que se convencionou chamar FEIO!
Neste último domingo, os caras deram uma puta aula de civilidade… e humor!
Numa esquina uma mulher, com sua criança, a caminho do trabalho teve dificuldades com a corrente de sua bicicleta, vinha de longe arrastando o trambolho em companhia de seu pequeno filho.
Três deles se solidarizam.

Um toma a iniciativa de consertar o veículo.


Arrumamos uma caixa improvisada de ferramentas e um deles se põe freneticamente a iniciar a correção do problema. Descobrimos que o sujeito já trabalhou com bicicletas. Fantástico. O melhor de tudo era a ansiedade deles -e minha torcida claro, para ajudar a pessoa em dificuldades.
Depois de um tempinho a operação é um sucesso. A trabalhadora em agradecimento saca de sua carteira 10 reais. Eles recusam. Ela insiste. É a forma de mostrar gratidão por parte dela. Eles ensaiam, a princípio um protesto misto de indignação… mas aceitam, claro.


Barba, um dos moradores de rua e talvez meu coprodutor, dando meio de ombro, avisa:
– “Olha na bicicletaria tu ia pagar uns 5 reais viu!!!”
Rimos! A moça insiste nos 10 pilas e parte, pedalando, para o trabalho.
Porra!! A alegria na cara dos SUJEITOS é sensacional!!!
Ali junto, testemunhando todo o desenrolar do momento dava para sentir a felicidade deles se sentirem capazes de ajudar um “normal”. Tive a impressão que houve uma breve centelha de tempo em que o êxtase foi melhor que queimar uma pedra.
Na sequência me convidam para “sala” a céu aberto, para uma rodada. Para uns “tiros!”.
Ficamos ali um tempo – curtindo a brisa dos manos.
De longe ouvimos vozes altas de alguém provavelmente protestando.
Surge outro papo.
Agora um deles fala que um velho tinha descascado os usuário, os vagabundos de rua. segundo seu relato o tal velho estava indignado com a atitude da sociedade.
Para ele [o velho] ser um drogado era muito fácil.
– O cara fala que tá com fome, vai num restaurante!! Pronto ganha um prato de comida.
– O cara fala que tá com frio, vai na casa de um bacana e pronto. Ganha uma roupa quente…
– O cara que usar suar drogas, sai por ai pedindo dinheiro e povo da dá…..


Barba, primeiro olha com uma cara de indignado do caralho. como se fosse um rei que tivesse sido destronado! Dá de ombros e todos rimos. Muito.
Metade da tarde do domingo se foi. Nos despedimos. Eles vão a luta.
Eu, para minha gaiola!
No caminho rumino, como um boi velho a caminho do matadouro, as noticias que havia lido no dia anterior sobre as falas do quinto homem mais rico, corporotocrata, branco Elon Muski que havia afirmado que “Vamos dar golpe em quem quisermos! Lide com isso”! em referência ao golpe dado na Bolívia!
Caminho pensando na garota atrasada para seu serviço num domingo de sol pela tarde, longe de seu filho para ganhar uns míseros cobres…
Penso na alegria dos manos.
Nas mortes no território boliviano levado a cabo pelos brancos bem sucedidos!


Para elonzinho e sua matilha isso deve ser mero detalhe.
Começo a achar que os “jhows”, os párias, é que representam de fato a resistência!

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